Expectativas irreaisPor incrível que pareça, sempre é necessário sermos relembrados da dura realidade apresentada pela Bíblia: somos pecadores num mundo caído.O relato da queda nos apresenta as diferenças entre o ideal divino para os relacionamentos humanos, percebido e experimentado por Adão e Eva (Gênesis 2.18,23-25), e a realidade após a entrada do pecado na Criação (Gênesis 3.7,12,16).Isto significa que as idealizações serão, na maioria das vezes, frustradas pelos fatos. No caso do casamento, estas idealizações começam na ingenuidade da infância e são alimentadas pelas máscaras do namoro e pelas lentes da paixão. Além disso, como cristãos, ansiamos pelo altíssimo padrão de relacionamento conjugal que nossa fé propõe.O apóstolo Pedro (1Pedro 1.3-7) celebra a salvação que Deus nos concedeu em Cristo Jesus. Ele afirma que temos uma viva esperança (v.3); temos reservada uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível (v.4); e somos guardados pelo poder de Deus para a salvação que está para se manifestar (v.5). Apesar de toda esta magnífica obra divina em nós, no presente momento nós somos constantemente (6-7):Contristados – seremos atingidos pelas consequências de vivermos em um mundo caído.Provados – seremos testados por diversas situações que não planejamos, provindas da natureza, das limitações humanas e da maldade humana.Apurados – seremos purificados por meio das dificuldades como se separa o ouro das impurezas pelo fogo.Todos queremos ser felizes, e não há nada de errado em buscar a realização pessoal ou profissional, em desfrutar de conforto e lazer, querer ser feliz no matrimônio. Nosso Criador é a fonte das alegrias que há neste mundo (Eclesiastes 3.12-13; 9.7-9; Mateus 5.45; Atos 14.17). Mas, por outro lado, o Senhor decidiu deixar-nos neste mundo caído porque pretende usar as dificuldades que enfrentamos para fazer algo em nós que não poderia ser feito de outra maneira.Ser feliz é um bom objetivo, mas é muito modesto. O alvo de Deus é mais profundo e eterno: Ele quer nos fazer parecidos com seu Filho Jesus Cristo (Romanos 8.28-29; 2Coríntios 3.18; 1João 3.2). E toda vez que nossos projetos pessoais forem obstáculos ao seu projeto eterno, ele obstruirá nossa caminhada em busca da felicidade com tristezas e provas que não desejamos, visando nos transformar à imagem de Jesus.Obviamente, nossos casamentos não são um capítulo à parte na linda história que Pedro afirma que Deus está escrevendo em nossas vidas por meio de tristezas e provas – pelo contrário, muitas vezes são o eixo central da narrativa.Imaginemos o seguinte dia hipotético:Cena 1: Carlos teve um péssimo dia na empresa. Talvez a loja central tenha sido assaltada; ou as vendas na Ásia tenham despencado após o terremoto; ou tenha sido preterido pelo Diretor numa promoção em favor da amante incompetente; ou o trânsito estivesse especialmente ruim devido às enchentes; ou sua gastrite nervosa esteja atacada pelas preocupações com as prestações do apartamento; ou ele cometeu uma falha num relatório que vai custar um prejuízo equivalente a seu salário de um ano; ou...Cena 2: Márcia teve um dia totalmente sem-graça. Talvez tenha feito suas atividades domésticas cotidianas, que nunca terminam; ou se desgastado com os filhos pequenos, enchendo-se de culpa pelos berros que deu; ou esteja cansada com uma jornada dupla que não lhe confere um bom salário; ou desanimada com uma jornada dupla que nunca recebe o reconhecimento pelo zelo com a casa; ou tenha se esforçado muito preparando um cardápio digno de restaurantes finos, mesmo sabendo que a família reclama quando não tem feijão e arroz; ou...Cena 3: Carlos e Márcia são jogados um contra o outro pela torrente de irritação e frustração de ambos. As palavras são ríspidas, ou frias, ou gritadas, ou engolidas; os gestos lembram pugilistas cercando-se e atacando-se num ringue; ou estranhos obrigados ao convívio num elevador; ou duelistas atentos ao mínimo movimento do oponente num duelo. Se você perguntar, ambos negarão veementemente que tivessem planejado que aquela noite terminasse assim. Precisavam um do outro mais do que nunca, mas apenas se afastaram miseravelmente.Tendemos a viver como se a vida fosse a nossa festa de aniversário: colocamos nossa vontade e felicidade no centro de tudo, e esperamos que todos sejam facilitadores neste processo egocêntrico. É claro que colocamos nossa maior expectativa sobre quem prometeu nos amar pelo resto da vida.Assim, quando nosso cônjuge peca contra nós, reagimos imediatamente nos defendendo (e alguns consideram a melhor defesa o ataque). Mas Deus não nos ajuntou para ficarmos preocupados com nosso próprio bem-estar (Filipenses 2.2-5; 1Coríntios 13.5; 10.24; Romanos 15.1-3), mas justamente para o contrário – para amarmos como Jesus.Deus ama seu cônjuge e está empenhado em moldá-lo à imagem de Jesus. E como ele escolheu você como instrumento contínuo desta transformação, ele o levará a experimentar pessoalmente a fraqueza, o fracasso, a limitação e o pecado em seu cônjuge que necessitam de transformação. Com graça e misericórdia, nossos casamentos podem ser locais de amadurecimento espiritual e serviço mútuo (Mateus 18.15; Gálatas 6.1; 1Coríntios 10.12).Na maioria dos problemas que enfrentamos no relacionamento conjugal, nosso cônjuge não agiu intencionalmente para dificultar nossa vida. O que ocorre é que nossa vida está sendo afetada pelos pecados, falhas e fraquezas do outro e, para piorar, reagimos ao pecado de maneira igualmente pecaminosa. Desde Caim, agressão e fuga são nossas maneiras carnais de resolver um problema de relacionamento.Mas se você estiver atento ao propósito divino, não será dominado pela ira contra seu cônjuge, tomando tudo como intencional e pessoal contra você (Lucas 6.27-30; Romanos 12.21; 1Pedro 3.9). Em vez de ser a marreta que despedaça a peça defeituosa, ou a pá que recolhe os cacos e deposita no lixo, você desejará ser a mão do oleiro modelando suavemente esta peça de argila (Provérbios 17.27; 1Tessalonicenses 5.11; Hebreus 10.24).
